sábado, 12 de junho de 2010

Cicuta

As sementes de cicuta semeadas no
vento germinam fragrâncias venenosas que
me povoam a mente de ideias pecaminosas: ter-te
- pura cobiça - entre a porta escancarada da
luxúria e o abismo da aleivosia. Ler-te nos olhos
a avidez com que antecipas a cópula é possuir-te já. Já
- inevitavelmente - num rodopio de roupas que se rasgam e
carnes que se devoram. Já... é passado, uma fracção de
segundo que ficou no prazer dos corpos imundos. Mas
lava-se o rosto, troca-se de roupa, e - tudo resolvido -
alma nova, corpo saciado. "Até mais" - sem dúvida -
"separemo-nos" - as aparências.
Desço tranquilamente a rua (há algo reconfortante no ar:
é mais puro - engano, puro veneno).
E uma multidão de cicutas engalanadas
dá um aspecto mais sério e honesto à cidade.

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