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terça-feira, 5 de junho de 2012

Trailer - Memento

Sabemos logo como acaba, no início. O objectivo de Leonard (Guy Pearce) - matar o assasino da mulher - cumprido. Ou será que não? A história é contada da frente para trás. Vai-se completando e enredando em cada regressão. É gravada na pele de Leonard, em apontamentos, nas costas de fotografias. É a sua realidade. Aquela da qual, alguns minutos depois, não se lembrará. Confiará no que foi escrito por ele. Nada é o que parece, ou pareceu, depois, alguns minutos antes. O tempo virado do avesso. Só o objectivo se mantém. Mas o que sobrará a alguém que persegue cegamente um e um só fim, que vive em função disso, quando esse objectivo for alcançado? Confrontado com esta e outras questões, Leonard tem de tomar uma decisão. Afinal não acaba. O fim será apenas um de muitos fins, repetidos, como propósito de vida. Ou, pelo menos, é assim que eu me lembro de...


... Memento.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Trailer - Heima

Heima (em casa) é uma viagem até ao coração da Islândia, onde os Sigur Rós deram uma série de concertos gratuitos, não anunciados, para a população local. A excelência da música (para os apreciadores da banda) dispensa comentários. As imagens mostram-nos um novo mundo antigo, longe das grandes cidades que nos fazem esquecer que existe vida para além delas. Que houve vida antes delas. O Homem despreza com uma ingratidão impressionante as suas origens. Chama-lhe progresso. Mas o progresso só faz sentido se contribuir para o bem-estar das pessoas. E qualquer coisa que destrua esta pausa essencial no rebuliço diário, este repouso ancestral, necessário para o equilíbrio das mentes, não é um progresso, mas sim um retrocesso.

Quando eu era mais novo, costumava passar férias numa aldeia nos arredores do Porto, onde nasceu a minha mãe e mora, ainda, parte da minha família. Junto de gente simples, cujo relógio batia bem mais lento (e saudável) do que o da gente da cidade. Gente impoluta, que mantinha princípios esquecidos, calcados em nome do avanço tecnológico. Os fins justificam os meios - dizem. Pois eu tenho saudade desse tempo em que tudo era mais simples. Não havia Internet, 100 canais na televisão. As ruas eram de terra (de lama, no Inverno), caminhava-se, em vez de se viajar de carro até ao café a 500 metros de casa. Ia-se pescar e almoçar em cima de uma pedra rodeada por árvores. Havia menos conforto, mas as pessoas eram mais felizes. Hoje, há menos caminhos de terra, os carros chegaram em força à aldeia, há televisão, Internet e acesso à informação global. As pessoas saem menos para pescar e mais para o centro comercial mais próximo. Há mais conhecimento, mais conforto. E menos gente a sorrir. Já não há tempo para sorrir, nesta aldeia global que supostamente deveria aproximar-nos uns dos outros e fazer-nos mais felizes, mas que resulta precisamente no oposto.

Não sei se o conhecimento é directamente proporcional à infelicidade. Não imagino a minha vida sem o conforto que tenho em casa, sem uma via que me ligue ao mundo, ao conhecimento que está ao alcance de todos, e não de apenas de uma elite. Não sou contra o progresso, ele é necessário e inevitável. Simplesmente, tenho saudade da minha aldeia. Daquela aldeia antiga que hoje já não existe.

Em casa, no conforto do meu sofá, assisto no computador à deslumbrante paisagem islandesa. Sem compreender por que motivo estas duas faces da mesma realidade não podem coexistir pacífica e progressivamente.



terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Trailer - Before Sunrise

Conhecem-se no comboio. Ela, Celine (Julie Delpy), uma francesa de regresso às aulas em Paris, após uma visita à avó, em Budapeste. Ele, Jesse (Ethan Hawke), um americano vagueando pela Europa, depois de uma recente relação falhada, em Madrid. Estudam-se, trocam ideias, ele faz a proposta:
- Sais do comboio comigo em Viena e damos a volta pela cidade.
Celine hesita:
- Vamos fazer o quê?
- Não sei. Só sei que tenho de apanhar um voo da Austrian Airlines amanhã de manhã às 9h30. Não tenho dinheiro para um hotel, por isso, vou andar às voltas. Era mais divertido se viesses comigo. Se eu for um tarado qualquer, tu apanhas o comboio seguinte.
Não chega para convencê-la. Jesse insiste.
- Avança dez ou vinte anos. Estás casada, mas o teu casamento já não tem a energia que tinha, começas a culpar o teu marido, começas a pensar em todos os tipos que conheceste e no que teria acontecido se tivesses ficado com um deles. Pronto, eu sou sou um deles. Pensa que isto é uma viagem no tempo de lá até aqui, para avaliar o que perdeste. Vê isto como um enorme favor que prestas a ti e ao teu futuro marido, para descobrires que não perdeste nada. Eu sou tão inútil quanto ele. Totalmente desmotivado, muito maçador. Afinal, fizeste a escolha certa e és muito feliz.

Um dia em Viena, onde as questões de uma vida inteira são antecipadas e onde uma vaca fuma com os cascos e se comporta como um cão, numa peça de teatro que Celine e Jesse não chegarão a ver. Os diálogos são absurdos, cómicos, intensos, realistas. Ele e ela vão-se aproximando desse lugar que, segundo Jesse, é uma fuga para duas pessoas que não sabem estar sós. Decidem que não deve haver amanhã. Tudo deve ser resumido a uma noite perfeita. Dizem adeus, antes, porque depois, no momento da despedida, magoaria mais. Aproveitam o momento, sem planos, sem preocupações. Antes do amanhecer. Um amanhecer rápido, melancólico, com sabor adiantado a saudade, a separação inevitável. A ideia do adeus torna-se insustentável. Talvez pudessem encontrar-se cinco anos depois. É muito tempo. Talvez um ano. Não, seis meses. Cais 9, 16 de Dezembro, às seis da tarde. Estará um frio de morrer. Mas levam com eles algo capaz de sobreviver ao mais duro Inverno. Até breve. E mais não disseram. E mais não digo.

Let's look at the trailer.


Afinal, digo. Não foram seis meses, foram nove anos. Mas deixemos isto para outra altura. Até porque ainda não vi o filme. Ou será que vi?

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Trailer - Lost in Translation

Vi, finalmente, o Lost in Tanslation. Talvez por ter lido críticas muito positivas, confesso que esperava mais. Ainda assim, gostei. A nível de imagem, o filme é excelente. O argumento é sóbrio, realista, subtil, com algumas pinceladas de humor a quebrar a melancolia dominante.

A história é sobre Bob (Bill Murray) e Charlotte (Scarlett Johansson), dois desconhecidos que se encontram por acaso, no meio de um país estranho e de uma noite de insónia, perdidos na tradução de uma língua, de uma cultura e do sentido da vida de cada um deles. É esse sentido que ambos procuram ao longo da história, com mais questões do que respostas, inevitavelmente.

A distância, que tanto pode medir-se pelos quilómetros que separam o Japão dos Estados Unidos, como pela resposta ausente de Maureen ao «já não sei com quem casei» de uma Charlotte em lágrimas. A monotonia de uma vida cujas cores se confundem como as amostras de alcatifa que Bob recebe da esposa: «tinhas razão acerca da borgonha, as outras nem lhe chegam aos calcanhares... (qual delas é a borgonha)?». A crise existencial amplificada por uma Tóquio desconhecida e vazia de sentido. Um ponto comum nas vidas de Bob e de Charlotte que faz com que se desenvolva uma relação de amizade entre eles, um amor prestes a materializar-se, platónico.

No final do filme, ele sussurra qualquer coisa imperceptível ao ouvido dela, deixando em aberto o final feliz com o qual os espectadores mais românticos sonham. Mas duvido que, de regresso à realidade dos seus quotidianos, sem néones nem karaokes, tudo o que ambos experienciaram juntos pudesse ser mais do que aquela rapariga tão brilhantemente descrita em Changing Lanes. Na verdade, há um diálogo que demonstra que Bob e Charlotte tinham esta noção de efemeridade:

Charlotte - Nunca mais voltemos cá, porque nunca irá ser assim tão divertido.
Bob - Como queiras, tu é que mandas.


O amor é um lugar estranho - a tradução para português do título do filme. Neste caso, faz todo o sentido.

Aqui ficam algumas imagens, ao som do excelente Sometimes dos My Bloody Valentine. Quem preferir o trailer oficial pode vê-lo aqui.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Trailer - Manobra perigosa

O problema é quando dois estranhos mundos colidem.

Foi o que aconteceu num filme que eu vi recentemente. Manobra Perigosa (Changing Lanes), de Roger Michell, com Ben Affleck e Samuel L. Jackson, é um thriller de desfecho imprevisível e que nos prende desde o primeiro momento.

A acção desenrola-se num só dia e mostra-nos como, de repente, a nossa vida se pode transformar num caos, mas, ao mesmo tempo, fazer-nos despertar, conhecer uma parte de nós que sempre tivemos medo de enfrentar.

Os diálogos são deliciosos. Vou transcrever uma parte da reflexão final de uma das personagens:

"É como ir à praia, ir até à água, que está fria, e não temos a certeza de entrar.
Há uma rapariga bonita ali perto.
Ela também não quer entrar.
Ela vê-nos.
E nós sabemos que, se lhe perguntássemos o nome, nunca mais a deixaríamos.
Esquecíamos a vida, a pessoa com quem tínhamos vindo.
Deixávamos a praia com ela.
E, depois desse dia, recordamo-nos dela.
Não todos os dias ou todas as semanas.
Ela vem-nos à memória.
É a memória de outra vida que podíamos ter tido.
O dia de hoje é essa rapariga."

Let's look at the trailer.




Fica a sugestão.