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terça-feira, 10 de julho de 2012

Ainda a propósito de memória

Estive a rever o Blade Runner. Há uma parte do filme, em que Roy (Rutger Hauer), um dos replicantes a ser abatido, abdica da sua vingança para que Rick (Harrison Ford), blade runner encarregado de o «afastar», perceba o significado de medo, o medo de quem julga que vai morrer a seguir. Rick foi salvo, in extremis, por Roy. A Roy já nada nem ninguém podia valer, o seu prazo de validade havia chegado ao fim. Estas foram as suas últimas palavras:

«I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I've watched C-beams glitter in the dark near the Tannhauser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die.»

A memória é uma via indispensável para nossa identidade. Sem memória, a nossa existência, pura e simplesmente, apagar-se-ia. Regra geral, isso acontece aquando da nossa morte. Às vezes, acontece antes.

Quando recordamos um determinado momento, estamos, de certa forma, a revivê-lo. Mas, a partir de uma certa altura da vida, recordar é também perceber que estamos mais velhos (logo, mais perto do fim) e que aquele momento que acabámos de recordar é irrepetível, não pela sua singularidade, mas porque nos faltam capacidades físicas e/ou psicológicas para o conseguir repetir. Queríamos mais. Mais vida, como pediu Roy ao seu construtor. Mas não é possível. E isto faz-nos morrer um pouco.

Para quem esteja num processo de perda de memória, esta parte inconveniente, omitida na frase «recordar é viver», torna-se irrelevante, perante a perda progressiva de identidade. Imagino o que uma pessoa nestas circunstâncias, e que tenha consciência do que está a acontecer, não daria por mais tempo de memória, nem que fosse para morrer um pouco ao recordar a seguir. É mesmo assim: queremos o que não temos e, por vezes, só damos valor ao que temos quando estamos prestes a perdê-lo (ou já o perdemos).

Quem, por outro lado, tem ainda o privilégio de se lembrar (e a expectativa de continuar a lembrar-se) das coisas, está pouco preocupado com o tempo das recordações. Escreve e reescreve a sua vida, pois tem todo o tempo do mundo para o fazer. Ou, pelo menos, assim parece.

Mas não é. E mais cedo do que tarde acabamos a procurar compensar, recorrendo a eufemismos e meias-verdades, a dura realidade de estarmos mais velhos. Eu disse velhos? - Velhos são os trapos! - Queria dizer maduros, experientes e sábios...

Ficam algumas imagens que vale a pena recordar, ao som da excelente banda sonora do filme.


sábado, 2 de junho de 2012

Flashback

Tentou recuperar a intensidade das coisas, sem recorrer aos meios artificiais que fizeram viver tudo com mais intensidade. Descobriu que não era possível. Tentou perceber como viver apesar dessa perda de intensidade. Descobriu que com conformismo. Aceitando a perda. Procurando outras intensidades menos intensas (sempre, para sempre menos intensas) e tentando equilibrar a balança dessa forma. Da diferença entre o peso absoluto de antes e de depois, resultou um vazio impreenchível. Nunca mais a vida nos extremos. Nunca mais. O que perdeu em intensidade ganhou em lucidez. Mais lucidez. Mais. Até o peso da lucidez se tornar superior ao que a sua mente conseguia suportar. Percebeu que era necessário reduzir o peso da lucidez. Deixar de enfrentar todas as coisas. Um acto de subsistência. Menos lucidez. Menos. Até não encarar coisa nenhuma. Descobriu que era outra forma de desgaste, mais lento, constante, interminável. Que seria imprescindível enfrentar a vida ou, pelo menos, uma parte dela. Que só assim seria possível manter a balança equilibrada e dar algum sentido a uma vida sem sentido. Minimizar as perdas. Sobreviver.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Não haverá por aí um comprimido verde?

«Muita gente prefere dormir em vez de viver, mesmo sabendo que a realidade de que está a desfrutar é falsa.»

Li isto no blogue ali ao lado e lembrei-me do Matrix. O que é a realidade? Do ponto de vista de quem está na incubadora a servir de alimento às máquinas, sem ter conhecimento disso, a realidade é uma. Para quem está fora, é outra completamente diferente. Mas quem está dentro (da incubadora) não conhece a realidade de quem está fora. Pura e simplesmente ela não existe. Como é que uma coisa que não existe pode ser verdadeira? Ou, se preferirem, como é que a única realidade que conhecemos pode ser falsa?

A realidade é subjectiva. Claro que existem referências, pontos comuns, uma plataforma de entendimento a que chamamos realidade objectiva. Precisamos disso para nos orientarmos, para nos entendermos, para darmos sentido às coisas. Mas ninguém consegue garantir-nos que essa realidade corresponde à verdade, que não existe algures outra realidade que desconhecemos, com outras referências, outros pontos comuns, e capaz de transformar tudo aquilo que conhecemos numa mera ilusão. E não é preciso implantarem-nos nada no cérebro. Infelizmente. (E aproveito para sugerir outro excelente filme: Memento).

A realidade é percepção. É por isso que sempre que alguém me diz «estás a enganar-te» eu desconfio. Porque já experimentei o comprimido azul e o vermelho. Porque não há um único dia em que eu não me pergunte qual é a verdadeira ilusão: se aquela que nós escolhemos sabendo o que ela é (uma ilusão), ou se a outra, supostamente verdadeira, mas que mais não faz do que conduzir-nos, em círculos, na procura incessante de algo que só será alcançável no dia em que baixarmos as nossas expectativas, de forma a que a tão prometida felicidade suba até à nossa triste realidade.

Não, não quero de volta o comprimido azul. O que eu queria era um comprimido verde. Seja lá o que isso for.