sábado, 19 de novembro de 2011

De la musique - The Cinematic Orchestra


Tema: Panoramica [The Cinematic Orchestra Remix]
Intérprete: The Cinematic Orchestra
Álbum: Remixes 1998-2000 (2000)

Panorâmica

Tenho como pano de fundo o movimento constante da cidade.
Absorvo-o todo, numa emulação de presença que, por
instantes, me preenche. De facto, é na letargia de tal
momento que sinto o aconchego de um lar: a grande família
reunida num cenário imaginário, enquadrada num tempo que nunca
foi; e isto basta-me. Assim, ao observar cada rosto que passa,
posso dizer, com verdade, que pertenço à corrente (ainda que
ela só exista como ideal). Ora, é partindo deste pressuposto
que, conscientemente, me abandono para me encontrar depois
- panorâmico até que os olhos me ardam.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

E podia escrevê-lo de mil maneiras diferentes,
que continuarias a ser página.
E podia inventar-te de outras mil formas,
que não passarias de palavras.
E podia dizer sempre o mesmo. E digo.

De la musique - The Walkmen


Tema: Stop Talking
Intérprete: The Walkmen
Álbum: Everyone Who Pretended to Like Me Is Gone (2002)
Porque hei-de eu dizer sempre o mesmo?
Porque é que a mesa, sobre a qual escrevo,
há-de ser só gelo e gumes de punhais?
Porque não redonda e macia,
corpo quente de mulher?

terça-feira, 18 de outubro de 2011



Quando o halo da lua
se delonga no branco passageiro
das nuvens,
e na peugada espessa da noite
seguem, firmes e cintilantes,
os meus pensamentos;
então, sei que ainda sonha
o que sobre o sonho medita.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

De la musique - Slowdive


Tema: When the Sun Hits
Intérprete: Slowdive
Álbum: Souvlaki (1993)

Beijos furtivos

Vagueiam beijos pela praia.
Sem forma ou rosto definidos, são
apenas vultos, rebolando pelo areal
da memória, retocando os lábios
do tempo. «Mais»

- o desejo no ouvido, uma vaga voz
desenhando círculos hipnóticos que
vibram algures entre o piscar dos
olhos e a respiração ofegante.

Subitamente, a luz, o poder magnético
do ocaso, os braços magos da volúpia,
trazendo nos dedos o calor de outras tardes

e da noite,
pousando, lentamente, nos teus ombros.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

De la musique - Foals


Tema: Balloons
Intérprete: Foals
Álbum: Antidotes (2008)

O bestial, a besta e a poesia

Subiu num balão cor-de-rosa,
o bestial.
Encheu-o de sonhos alheios
e ergueu-os no céu
como se fossem seus.

Lá em cima,
dominava-o
com habilidosos malabarismos.
Cá em baixo, era o êxtase;
todos contemplavam o balão,
cheio de cor
- cheio de ilusões perdidas.

Mas o bestial,
de tanto exibir sonhos que não eram seus,
adormeceu
com o encanto de os sonhar ter.

E o balão, à deriva,
chocou
com o pico da realidade.

- Rebentou o balão, caiu a besta
no chão desértico. -

Meio atordoada,
a besta
tentou salvar o bestial;
reuniu o que restava do balão,
dos sonhos despedaçados,
tentou enchê-los, em vão.

- A besta
não sabia sonhar,
a sua arte era trabalhar
sobre o chão que pisava;
o seu balão era uma pedra,
bruta, feia,
enraizada na terra. -

«Pobre bestial»
- pensou a besta,
enquanto esculpia o chão.
«Pobre besta»
- pensou o bestial,
saudoso do balão.