quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Mão-de-obra barata


Por falar em poupanças, para todos aqueles que diariamente são obrigados a fechar as suas empresas, têm aqui uma boa possibilidade de encontrar mão-de-obra barata. Consta que os gatos estão no desemprego, tão potente e letal é o seu concorrente. Portanto, já sabe, duas doses de Whiskas por dia e os seus problemas de despesas com salários ficam resolvidos! Com um bocado de sorte, e uma vez que parece que o veneno não mata só ratos, pode ser que os desempregados (não são os gatos, são os outros, os que só servem para aumentar a despesa da sua empresa) que, com a nova lei do arrendamento, vão ter de morar debaixo da ponte, aproveitem para afogar a miséria e o governo anuncie uma diminuição do desemprego ainda este ano. Todos lucram. Menos os ratos, claro. Mas esses andavam aí sem fazer nada e a receber RSI, portanto, não se perde grande coisa. Pelo contrário, é menos despesa para a Segurança Social. Como vêem, ainda há esperança para este batatal a que chamam Portugal (pronto, tinhas de estragar tudo com uma rima).

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Poupe dinheiro nas férias

imagem: Zhao Huasen

Numa altura em que os bolsos dos portugueses estão cada vez mais cheios de buracos e vazios de dinheiro, até a bicicleta, que ainda há bem pouco tempo era considerada um meio de transporte económico, se pode transformar num acessório de luxo. Se for esse o seu caso, tem aqui a alternativa ideal: precisa apenas de sol, a sombra faz o resto. Boas férias.

sábado, 14 de julho de 2012

De la musique - Tame Impala

Para quem ainda tem todo o tempo do mundo (ou mandou uma daquelas coisas que fazem com que o tempo passe exactamente da mesma forma, embora não pareça).


Tema: Bold Arrow of Time
Intérprete: Tame Impala
Álbum: Innerspeaker (2010)
Ouço-os,
no surrar do vento,
quando as janelas se fecham,
os passos que se vão.

Vejo-os,
no baço do vidro de aço,
os braços que, presos,
os perseguem.

Chamo-os,
no fogo dos trovões,
no desfile do troar,
os olhos de sangue rubro;

e grito!...
espasmos mudos
no ar que me devora,
sem que fale...

(e ficou algo por dizer...)

Sim,

sinto
- pressinto -
a presença da ausência,
no cheiro
da vela queimada,
sem chama...

e chamo,
clamo!
tardiamente reclamo...

O tempo.

Bom dia

Isto (aqui em cima) dizia eu há 10 anos. Agora não clamo, não reclamo, faço menos trocadilhos e evito pontos de exclamação, sobretudo depois do que não precisa de ser exclamado para ser ouvido (neste caso, lido). Aceito que o tempo já era. Ou melhor, foi. Sem suspense. Adiante.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Ainda a propósito de memória

Estive a rever o Blade Runner. Há uma parte do filme, em que Roy (Rutger Hauer), um dos replicantes a ser abatido, abdica da sua vingança para que Rick (Harrison Ford), blade runner encarregado de o «afastar», perceba o significado de medo, o medo de quem julga que vai morrer a seguir. Rick foi salvo, in extremis, por Roy. A Roy já nada nem ninguém podia valer, o seu prazo de validade havia chegado ao fim. Estas foram as suas últimas palavras:

«I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I've watched C-beams glitter in the dark near the Tannhauser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die.»

A memória é uma via indispensável para nossa identidade. Sem memória, a nossa existência, pura e simplesmente, apagar-se-ia. Regra geral, isso acontece aquando da nossa morte. Às vezes, acontece antes.

Quando recordamos um determinado momento, estamos, de certa forma, a revivê-lo. Mas, a partir de uma certa altura da vida, recordar é também perceber que estamos mais velhos (logo, mais perto do fim) e que aquele momento que acabámos de recordar é irrepetível, não pela sua singularidade, mas porque nos faltam capacidades físicas e/ou psicológicas para o conseguir repetir. Queríamos mais. Mais vida, como pediu Roy ao seu construtor. Mas não é possível. E isto faz-nos morrer um pouco.

Para quem esteja num processo de perda de memória, esta parte inconveniente, omitida na frase «recordar é viver», torna-se irrelevante, perante a perda progressiva de identidade. Imagino o que uma pessoa nestas circunstâncias, e que tenha consciência do que está a acontecer, não daria por mais tempo de memória, nem que fosse para morrer um pouco ao recordar a seguir. É mesmo assim: queremos o que não temos e, por vezes, só damos valor ao que temos quando estamos prestes a perdê-lo (ou já o perdemos).

Quem, por outro lado, tem ainda o privilégio de se lembrar (e a expectativa de continuar a lembrar-se) das coisas, está pouco preocupado com o tempo das recordações. Escreve e reescreve a sua vida, pois tem todo o tempo do mundo para o fazer. Ou, pelo menos, assim parece.

Mas não é. E mais cedo do que tarde acabamos a procurar compensar, recorrendo a eufemismos e meias-verdades, a dura realidade de estarmos mais velhos. Eu disse velhos? - Velhos são os trapos! - Queria dizer maduros, experientes e sábios...

Ficam algumas imagens que vale a pena recordar, ao som da excelente banda sonora do filme.


sábado, 30 de junho de 2012

De la musique - Booka Shade


Tema: Sweet Lies
Intérprete: Booka Shade
Álbum: The Sun & the Neon Light (2008)

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Recordar, viver

«O coração tem uma morte lenta, perdendo as esperanças uma a uma, como folhas. Até que, um dia, não resta nenhuma. Nenhuma esperança. Não resta nada.»
Memórias de uma Gueixa


Sempre ouvi dizer que recordar é viver. Permitam-me, respeitosamente, discordar. Sempre que eu recordo, sinto-me mais velho. Com a agravante de me começar a faltar a maquilhagem - metaforicamente falando (claro!) - necessária para disfarçar os factos.

Se a vida fosse uma produção de Hollywood, na qual uma chinesa se transforma em japonesa que busca um oriental sonho americano, talvez houvesse, algures, no trilho da desesperança, uma esposa do cair da noite, uma memória de gueixa, pronta a oferecer-me um, ou, vá lá, meio final feliz. Já não era mau.

Infelizmente, a vida não é um filme. E não é gueixa, é mesmo puta.

Bom dia

«Apenas fantasmagóricas lembranças e o nada
dividem entre si a tua herança sem destino.»

Juan Luis Panero

quarta-feira, 20 de junho de 2012


Imagem: JJaska

A casa não se esquece de ti. Coloca-te estrategicamente repartida por todas as divisões. No sofá, com o olhar distante, seguindo um canal qualquer que a operadora não fornece. Na cozinha, vendo-me descascar batatas para a sopa, enquanto saboreias uma tira de bacalhau cru. E rimos com ditos antigos, como o bocado que a boca perde por falar demais. Lembras-te? Lembras-te de como a sardinha continuava a pingar no pão, mesmo quando já quase não falavas? Por vezes sento-me ao teu lado, ao lado do teu corpinho débil, e passo a mão pela tua face carente. Eu sei que ela não está materialmente lá, que o que permanece na tua cama vazia é apenas uma imagem que a saudade desperta. O corpo cede, a imagem permanece. Porque a casa não se esquece de ti.