quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A traição não tem dono

Era noite escura. Passo curto, pesado, Miguel deambulava pelo negrume da estrada com o remorso estampado no rosto. Apenas o quebranto das ondas e a maresia o orientavam, lembrando-lhe, a espaços, que a praia estaria por perto. E lá continuava. O vento fustigava-o como o silvo de um chicote. Os olhos escorriam-lhe corpo abaixo, procurando em cada passo a razão da sua vinda. Perseguiam-no vozes de origem incerta. Só o tom era o mesmo, sempre o mesmo, meigo e tormentoso, proibido, irresistível. «Porque me cantas assim?» - interrogava-se. Mas, logo, o vento, sem tempo para lamentos, arrastando-o, empurrando-o para um destino que, mais cedo ou mais tarde, iria ter de enfrentar.

Quando, finalmente, chegou à praia, sentiu os sapatos a escaparem-se-lhe dos pés para o areal húmido e frio, e, instintivamente, aproximou-se da água. Debruçou-se sobre o enredo que esperava ansiosamente decifrar e viu-os: duas silhuetas enroladas na luxúria que a maré trazia de volta. Abraçava o ar como que recuperando o fulgor daquela noite: «para sempre o meu corpo no teu» - promessas, doces promessas. Mas, sempre, o açoite do vento, autoritário. «O que fazer?» - a derradeira, circular questão.

A bruma caíra sobre o corpo desfalecido. Miguel despertou abruptamente do que por segundos (que tentou prolongar em vão) lhe pareceu ter sido um pesadelo. Sentia o tempo a escoar-se, a roubar-lhe a pouca lucidez que lhe sobrava. Num rasgo de coragem, levantou-se, decidido, e fez-se à estrada.
A viagem era longa. As imagens que desfilavam no vidro dianteiro do automóvel foram dando lugar a outras mais antigas: os tempos em que Miguel e João estudavam Direito em Coimbra, as noitadas de farra, os amigos... «Sim, os amigos, mas de que vale a amizade aos pés daquele corpo, daquele rosto, daquela voz?»
Recordou o dia em que Anabela apareceu nas suas vidas, entre dois copos e as gargalhadas da noite: aproximou-se, de sorriso aberto, pediu-lhe lume; João antecipou-se - os dados estavam lançados. Anabela era uma mulher extrovertida e ousada, mas trazia com ela uma docilidade desconcertante. Era insaciável, devorava toda a atenção que lhe era dada com a avidez de uma predadora. Depois, novamente o sorriso, inocente, provocador.
João apaixonou-se imediatamente e, três meses depois, casaram-se. Desde esse dia que Miguel carregava com ele um estranho sentimento de perda.
Mas o casamento já vivera melhores dias e, lentamente, Anabela foi-se aproximando de Miguel, desabafando as mágoas, semeando o pecado - que há muito brotara na mente dele - até que tudo se precipitou: a praia acolheu-os, a noite ofereceu-lhes a maçã da serpente... «e o veneno corrói-me as entranhas» - pensou, ao avistar a casa de João.

Ao aproximar-se da porta, sentiu as pernas a fraquejarem-lhe. «Que lhe vou dizer? Como o vou poder encarar depois?» - repetia-se. O medo apoderou-se dele e pensou em ir-se embora, mas não havia como escapar da sua culpa. Tocou à porta.
- Ainda bem que vieste! Entra! - João afastou-se como viera: com a pressa e o olhar de um tresloucado. Miguel estremeceu. «É agora... já sabe, por certo... mas... como?» Sentiu um nó na garganta, mas lá cambaleou porta adentro.
- Como foste capaz, diz-me?! - parecia certo o fim da mascarada.
- João, eu...
- E logo com o meu melhor amigo! Se apanho aqueles dois, nem sei o que lhes faço!
Foi como uma pedra num imenso charco. As dúvidas alastraram-se de tal forma que, por instantes, pensou que fosse alguma brincadeira de mau gosto. Ainda hesitou, mas lá balbuciou:
- Aqueles... dois?!
João nem o ouvia, esgravatava o ar de alto a baixo e lá se entretinha a blasfemar.
- Ah, mas isto não fica assim! Eu vou descobrir para onde foste!
«Mas... será possível?!» - fez-se luz, de repente.
- Mas do que falas, afinal?! - quis confirmar.
João fitou-o com a surpresa de quem ainda não o tinha visto e retomou o discurso:
- Do que falo?! Eu digo-te do que falo! Aquela ingrata! Depois de tudo o que fiz por ela! Quem me manda a mim confiar em advogados?! São todos da mesma laia!
Palavras de um advogado - caiu no ridículo.
- Acalma-te. Conta-me tudo.
Sentaram-se. João procurou o copo pousado sobre a mesa, encheu-o de whisky e bebeu-o de um só trago - apenas o álcool parecia atenuar a sua ira.
- O Zé... tu sabes... que estudou connosco em Coimbra... e a Anabela... - fugiam-lhe as palavras para um sítio que há muito se adivinhava - a culpa é minha! - descaiu-se - a semana passada cheguei a casa e... - encheu de novo o copo, para o esvaziar de seguida - enfim, sentiu o cheiro de mulher... desconfiou... e eu, esta grande besta, contei-lhe! - novamente a dança do copo e do whisky.
- E contaste-lhe o quê? Não bebas mais, que já nem sabes o que dizes...
- Pois não sei o que digo! E a prova é que lhe disse!
Bebia e bebia... e, a cada sorvo, Miguel parecia sentir-lhe o travo. Uma estranha repulsa dominava-o, agora. Onde estava o tormento do remorso? Perdera-se, por certo, no meio de toda aquela trama.
- Ela não era nada para mim. Eu expliquei-lhe. Uma descaidela, nada mais. Que diabo, somos homens!
«Sim, somos homens... e temos o que merecemos.» Ecoavam-lhe nos ouvidos as palavras do outro: «como foste capaz?» Esquecido estava o motivo que o arrastara até ali.

Miguel regressou à praia. Sentado na areia, procurou, em vão, as imagens... o cheiro... a voz... - nada. Apenas e só o vazio, preenchido, aqui e ali, com as palavras do outro: «como foste capaz?» Escutava-as como se fossem suas. Fora-se com Anabela o que restava da honra, da lealdade ao amigo de longa data. Eram agora palavras ocas, sem essência, sem sentido. Ficara somente uma estranha indiferença, quebrada, momentaneamente, por um pensamento absurdo: «talvez ainda voltes.» «Não! Não pode ser!» - sacudiu a ideia, limpou os olhos. Uma lágrima caiu desamparada sobre a areia e, escorrendo como se tivesse dor própria, escreveu: «a traição não tem dono». Miguel sorveu demoradamente a frase, procurando nela algum tipo de conforto, mas a revolta arrancou-o do chão e pateou furiosamente o baixo-relevo das letras.
«Porquê?» - interrogou-se ao desaparecer na escuridão.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012


Quero-te assim, de perfil,
olhos distantes, despidos,
as mãos ligeiras, o toque
da brisa ténue que ondeia.

Quero-te assim, afagosa,
lábios serenos, marejam,
cabelos lentos, vagueiam
onde os sentidos convergem.

Quero-te assim, quase utópica,
retrato virgem, (in)tacto,
intemporal, quase página
onde as palavras repousam.

sábado, 28 de janeiro de 2012


Dois olhares que se tocam,
algures, no espaço preenchido
pela respiração descontínua.
Lia-se, com a nitidez dos sentidos,
a transparência dos gestos.
Pareceu-lhe ter, deambulando pelo peito,
ou entre as mãos que esmagam o tempo
(e era tempo de infinito)
a palavra amor.
Mas de onde alcança a vista tal sorte?
Que Deus ou Homem os condenou à morte?
Pois se era tempo de infinito...
E eram eles, ou nós, ou eu...
E era tudo, e será sempre tudo,
mesmo que em memória, palavras,
ou em imagens que ninguém quis.
E num qualquer banco de pedra
fustigado pelo mar,
vou aperfeiçoando a focagem
e balbuciando o verbo amar.

De la musique - Boards of Canada


Tema: Over the Horizon Radar
Intérprete: Boards of Canada
Álbum: Geogaddi (2003)
Mostra-me esse teu olhar atado ao horizonte.
Diz-me com essa tua voz de vento
como fala o vento, quando traz a tua
voz de vento. Sei que, para lá dos montes,
onde o horizonte guarda o teu olhar atado
a tudo, existe tudo. Não tenho ciência para
quebrar versos. Não tenho sonhos de cetim para
colocar nos versos. Faço uma pausa para dizer isto
porque prefiro versos bem quebrados a corações
destroçados por versos de cetim. Nem que
para isso tenha de forçar a rima. Quantos versos
passaram desde que vi o teu olhar atado ao horizonte?
Quantos sonhos ficaram por te querer ver para lá de tudo,
onde existe tudo? Há quem diga que jogo com as palavras.
Mas muitas vezes são as palavras a jogar comigo.
Não faço questão de que entendam esse jogo,
disputado entre mim e as palavras. Simplesmente,
não posso recusar o vento, quando o vento escreve
a tua voz de vento. Nem deixar de procurar
o teu olhar atado ao horizonte.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

De la musique - Aarktica


Out to Sea by Aarktica on Grooveshark

Tema: Out to Sea
Intérprete: Aarktica
Álbum: Pure Tone Audiometry (2003)
Tão perto, o mar...
E é tão ténue a fronteira,
que nem sei se chego ou se passei.
O ritmo é incerto, a dança, matreira:
um passo à frente, dois atrás,
como quem toma, como quem traz...
Traz o quê?
Sonhos de vento, histórias fugazes
e este olhar em espiral?
Enfim, adiante.
E está tão perto o mar distante...

sábado, 14 de janeiro de 2012

De la musique - Daft Punk



Tema: Nocturne, Solar Sailer
Intérprete: Daft Punk
Álbum: Tron: Legacy (2010)

Indecisão nocturna

Uma orla vadia
demarca um mar envolto em calmaria.
Uma gaivota desce sobre o verso
e uma brisa expõe o meu reverso
- um outro »eu« que me acena ao largo,
ou um pedaço de papel em tom menos amargo?
Sigo a caneta rumo ao lusco-fusco:
os olhos vagos, a infindável rota,
numa vertigem que me seca a boca.
Será indizível aquilo que busco?
Este silêncio-sede cravado na voz,
a noite imensa chamando por nós,
diz-me que sim, diz-me que não,
termina o texto em plena indecisão.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

De la musique - UNKLE


Tema: Rabbit in Your Headlights
Intérprete: UNKLE
Álbum: Psyence Fiction (1998)