Primeiro, entras no labirinto dos olhos, perdes-te
em aromas ébrios, no deslumbramento da pele, no
chamamento dos lábios. Depois, a carne, a fusão
etérea, o fogo consumado. Ainda, um breve resvalar
de promessas sobre tons místicos; e ei-la: a pausa,
o desvendar da eternidade, o aconchego do céu.
E adormeces.
Um dia, acordas. Tens frio. Tens medo. Estás só.
Tentas recuperar o sonho, mas é inútil; já não é tempo de
infinito. Então, partes à procura do amor, com paixão
insaciável, mas sóbria, regressiva, mas madura, cheia
de eufemismos e de falsas contradições.
De quando em vez, questionas: ainda sonho?
E não sonhas.
Então, regressas. Então, partes.
Hei-de morrer tentando - afirmas, qual herói de banda
desenhada, com suas vestes de balões em surdina.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Ausência (I)
O automóvel parou. Um cenário de luzes foscas
caiu abruptamente sobre o pára-brisas, e
o silêncio bradou. Onde estava o nimbo da lua, o
fulgor trémulo das estrelas, a brisa das palavras
nos ouvidos? Há muito que o perdêramos pelas
curvas da vida. O que a noite nos trazia naquele
instante não era mais do que a cinza dos
sonhos e a embriaguez dos lençóis,
e sabíamo-lo, cúmplices da nossa sorte.
(De tão pouco nos vale a consciência dos (f)actos...)
Subimos as escadas da desesperança, e
espalhámos pelo quarto de todas as ausências
restos de prazer e de gestos.
caiu abruptamente sobre o pára-brisas, e
o silêncio bradou. Onde estava o nimbo da lua, o
fulgor trémulo das estrelas, a brisa das palavras
nos ouvidos? Há muito que o perdêramos pelas
curvas da vida. O que a noite nos trazia naquele
instante não era mais do que a cinza dos
sonhos e a embriaguez dos lençóis,
e sabíamo-lo, cúmplices da nossa sorte.
(De tão pouco nos vale a consciência dos (f)actos...)
Subimos as escadas da desesperança, e
espalhámos pelo quarto de todas as ausências
restos de prazer e de gestos.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
De la musique - Fiona Apple
Tema: Fast as You Can
Intérprete: Fiona Apple
Álbum: When the Pawn Hits the Conflicts He Thinks Like a King... (1999)
Hei-de encontrar-te
Eis o rosto da noite, semicoberto, hipnótico,
imagem por entre a névoa iluminando-se.
Palco de sonhos evanescentes, refluídos?
Pouco me importa, a multidão dos meus olhos acorre ao
ambivalente espectáculo dos sentidos.
Sei que me esperas, algures, num desses minutos que cantam.
Na pausa do violino, no requiem do piano,
encenas ainda a nossa dança.
Sossega, hei-de encontrar-te.
E será tarde para que nos amemos.
imagem por entre a névoa iluminando-se.
Palco de sonhos evanescentes, refluídos?
Pouco me importa, a multidão dos meus olhos acorre ao
ambivalente espectáculo dos sentidos.
Sei que me esperas, algures, num desses minutos que cantam.
Na pausa do violino, no requiem do piano,
encenas ainda a nossa dança.
Sossega, hei-de encontrar-te.
E será tarde para que nos amemos.
Enclave
A vivacidade do ritmo,
as notas saindo da pauta
e as palavras deambulando
pelos intervalos.
Volta-se a face do espelho,
e procuro, na opacidade
do anverso onde me vejo,
um verso que me devolva
a cadência inicial.
Então, tudo recomeça:
as notas levitando no espaço,
as palavras desmaiando no vazio...
e o espelho, às voltas,
flectindo e reflectindo
o reverso das letras.
Uma clave de sol
coça-me a nuca e franze os olhos:
"tudo irreal na viagem surreal?"
(Lembrei-me agora
de dar corda ao relógio.)
as notas saindo da pauta
e as palavras deambulando
pelos intervalos.
Volta-se a face do espelho,
e procuro, na opacidade
do anverso onde me vejo,
um verso que me devolva
a cadência inicial.
Então, tudo recomeça:
as notas levitando no espaço,
as palavras desmaiando no vazio...
e o espelho, às voltas,
flectindo e reflectindo
o reverso das letras.
Uma clave de sol
coça-me a nuca e franze os olhos:
"tudo irreal na viagem surreal?"
(Lembrei-me agora
de dar corda ao relógio.)
quarta-feira, 24 de junho de 2009
S. João
E fogo de meia-noite, e reflexos de vozes no rio, e
carrinhos de choque, e matrecos, e
ginjinha, e sorrisos de pipocas, e
filas-de-mãos-dadas-da-batalha-até-à-foz, e
corpos enlaçados no cansaço da manhã, e
martelos de S. João desfeitos, um dia depois.
carrinhos de choque, e matrecos, e
ginjinha, e sorrisos de pipocas, e
filas-de-mãos-dadas-da-batalha-até-à-foz, e
corpos enlaçados no cansaço da manhã, e
martelos de S. João desfeitos, um dia depois.
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